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Greve dos caminhoneiros aprofunda crise no BrasilOpinião    Imprimir

14/07/2018 10:07
Greve dos caminhoneiros aprofunda crise no Brasil
No final de maio, País enfrentou a maior greve de caminhoneiros de sua história. O cientista político e membro Psol, Jorge Almeida, relata os antecedentes da greve e as suas prováveis ​​repercussões (*)

Por Jorge Almeida 0 comentrio          

A maior parte do transporte de cargas no Brasil é composta por 2,3 milhões de caminhoneiros, que transportam cerca de 60% dos produtos. Assim, o impacto da greve de 11 dias, quando milhares de caminhões foram parados e mais de 500 bloqueios de estradas foram estabelecidos, foi imenso. Houve uma escassez de combustível nos postos de gasolina, o que prejudicou o funcionamento diário da economia. Os empresários estimam uma perda de R$ 15 bilhões.

As demandas foram principalmente uma redução e congelamento do preço do diesel, uma melhoria nos pagamentos de frete e uma redução dos preços de pedágio. Mas os grevistas também exigiram ao presidente Michel Temer a sua saída. O movimento foi além do controle das lideranças sindicais burocratizadas e usou redes sociais como o WhatsApp.

As vidas dos caminhoneiros são muito difíceis. Eles são explorados por empregadores e empreiteiros, pagam pedágios abusivos em estradas ruins e inseguras e pagam por combustível a preços altos, Além de serem obrigados a trabalhar até 24 horas seguidas.

Setenta por cento dos caminhoneiros são autônomos e 30% empregados de empresas de transporte. Existem contradições de classe entre caminhoneiros, empregadores e empresas contratantes, mas também interesses corporativos comuns. Durante a paralização, houve ainda o bloqueio das vias, organizado por algumas empresas de transporte.

Desde o final de 2014, o governo do PT aumentou os preços do combustível acima da inflação. O atual governo agora vinculou os preços dos combustíveis ao mercado internacional e ao dólar norte-americano. Além disso, a fim de estender a privatização da empresa semi-pública de petróleo do país, a Petrobras, que já havia começado em governos anteriores, a administração de Temer reduziu a produção das refinarias brasileiras e aumentou as importações a preços mais altos. Isso aumentou muito os preços do diesel, gasolina e gás de cozinha, causando a radicalização dos caminhoneiros, com forte apoio popular.

O Brasil está em uma crise profunda. A presidente Dilma Rousseff (PT), reeleita em 2014, foi destituída do cargo em 2016 por meio de um impeachment sem evidência de “responsabilidade criminal”. O então vice-presidente Temer (MDB) e o Congresso Nacional, cuja ala direita e maioria corrupta também eram aliadas do PT, participaram desse golpe. O judiciário, os comandantes militares, os grandes negócios, os estados imperialistas e a mídia também o endossaram.

Mas isso só foi possível porque o governo do PT era muito fraco. Rousseff quebrou suas promessas depois das eleições e começou a promover duros ajustes neoliberais, tirando os direitos dos trabalhadores. Seu apoio popular caiu rapidamente para 10% e seu índice desfavorável subiu para 70%.

O novo governo pós-golpe de Temer chegou a radicalizar a privatização e as reformas anti-populares, aprofundando ainda mais a crise e aumentando a corrupção. A impopularidade do governo é enorme: 80% das pessoas querem sua remoção e apenas 3% o apóiam.

As reações políticas à greve foram variadas. Houve muitas manifestações populares contra o aumento de combustível, a Petrobras e em apoio à greve. Os sindicatos dos trabalhadores do petróleo começaram uma greve de 72 horas, mas foi proibida pelos tribunais e suspensa.

O governo de direita, o parlamento, grandes corporações empresariais, a grande mídia e o judiciário eram contra. A extrema direita encorajou a greve, tentando vinculá-la com uma demanda por "intervenção militar". Mas a maioria dos caminhoneiros não apoiou essa medida.

Os partidos e confederações sindicais ligadas ao antigo governo do PT ficaram aturdidos. Alguns de seus principais líderes foram contra a greve, acusando-a de ser uma manobra para promover um golpe militar. Outros deram apoio imediato. Mas o PT, oficialmente, não conseguiu tomar uma posição clara. Deu uma atenção quase exclusiva à libertação do ex-presidente Lula da Silva, seu candidato à presidência. Lula está atualmente preso por corrupção, mas nenhuma evidência clara foi apresentada, enquanto líderes corruptos de direita, incluindo o atual presidente, continuam livres.

As principais confederações sindicais não exigiram uma greve geral, que seria a melhor maneira de colocar a luta em um nível mais alto. As forças de confederação políticas e sindicais mais esquerdistas deram um apoio claro e pediram uma greve geral.

Entre os partidos representados no Congresso Nacional, apenas o Partido Socialismo e Liberdade (Psol) apoiou a greve e apenas três candidatos à presidência o apoiaram: Boulos (PSOL-PCB) e Vera Lucia (PSTU) à esquerda e Capitão Bolsonaro, candidato da extrema-direita.

O governo sofreu uma grande derrota. Primeiro, fez um acordo espúrio com as lideranças sindicais burocráticas, que foram recusadas pelos motoristas. Então decidiu reprimir o ataque usando o exército, mas isso não teve efeito prático.

A greve terminou após um acordo mais ou menos aceito. Houve ganhos parciais e o presidente da Petrobras foi demitido. Mas essas são conquistas incertas, porque a política de preços da Petrobras não foi alterada.

Os caminhoneiros foram vitoriosos em demonstrar grande força. Eles alertaram, no entanto, que a crise econômica, social e política continua se aprofundando.

E esta crise continuará a ser dramática, enquanto uma verdadeira alternativa popular de esquerda não surge: uma alternativa democrática e liderada pelos trabalhadores que confronte os monopólios e o imperialismo.


 (*) Artigo publicado originalmente na Socialist Review  


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