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Refugiados e trans também são incluídos em cotas da UfbaBahia    Imprimir

23/02/2019 15:35
Refugiados e trans também são incluídos em cotas da Ufba
Seleção para índios aldeados e moradores de comunidades remanescentes dos quilombos existe desde 2017, mas é inédita a inclusão de pessoas trans

EdgarDigital - Ufba 0 comentrio          

A matrícula para ingresso na graduação da Universidade Federal da Bahia (Ufba) tem uma turma de calouros de diferentes cursos ansiosos para cumprir as formalidades exigidas para, enfim, iniciarem a vida acadêmica. Esse clima de ansiedade marcou também a matrícula dos aldeados, quilombolas, trans e refugiados, na quarta-feira, 13 de fevereiro, no PAF 1, campus de Ondina, em Salvador.

A seleção para índios aldeados e moradores de comunidades remanescentes dos quilombos existe desde 2017, mas é inédita a inclusão de pessoas trans (transexuais, transgêneros, travestis) e refugiados ou imigrantes, todos eles em situação de vulnerabilidade social, no mesmo edital. Foram 25 os refugiados que participaram da seleção, seis dos quais foram selecionados para o primeiro semestre, e oito para o segundo semestre. Já transexuais foram 47 participantes e 23 selecionados. Para cada curso de graduação, são reservadas quatro vagas – uma para cada público –, inovação aprovada na resolução Nº 07/2018 do Conselho Acadêmico de Ensino da Ufba.

Anne Aime, de 21 anos, nasceu na cidade de Porto Príncipe, no Haiti, e está no Brasil há dois anos. Foi aprovada para o bacharelado em estatística, curso que começa neste primeiro semestre e que escolheu em razão de seu gosto pela matemática. Na véspera da matrícula, ela embarcou de Santa Maria, Rio Grande do Sul, onde até então vivia com o irmão, também haitiano, estudante de graduação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

“Muitos imigrantes não têm a oportunidade de estudar numa universidade federal, têm que fazer Enem para conseguir vaga, isso (uma seleção específica) facilita muito para entrar na vaga”, observou. Aime tem planos de seguir a carreira acadêmica e fazer mestrado em estatística na Ufba. “Depois acho que vou ficar pelo Brasil mesmo, gosto daqui”, contou.

Desde o terremoto no Haiti em 2010, que deixou 300 mil mortos no país, a imigração de haitianos para o Brasil foi intensificada. Enquanto em 2011 a Polícia Federal registrava 481 deles entrando no país, em 2015 foram 14.535, um aumento de mais de 30 vezes. Para essa migração específica, que se enquadra do ponto de vista teórico como migração de crise – causada por fatores econômicos e geopolíticos -, o governo federal decidiu conceder visto humanitário aos haitianos.

Aryadne Waldely, assistente de proteção da agência da ONU para refugiados, ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), acompanhou a matrícula dos refugiados e imigrantes.

Um dia antes da matrícula, Waldely esteve na reitoria da Ufba e conversou com o o reitor em exercício Paulo Miguez, que falou sobre a difícil situação dos refugiados, expropriados não apenas de seu espaço familiar, mas também de suas memórias. Miguez abordou o importante trabalho do ACNUR, que ele teve oportunidade de conhecer durante os 11 anos que trabalhou em Moçambique, frente às populações acuadas por guerras, fatores econômicos e ambientais. Participaram do encontro o pró-reitor de ensino e graduação, Penildon Silva Filho, e a coordenadora de atendimento e registros estudantis, Maria Celeste de Melo.

“No Brasil, se olharmos os dados de 10 anos atrás, vemos que eram poucas centenas de imigrantes por ano, hoje entra essa quantidade por dia”, disse Aryadne Waldely, que ressaltou a importância de se formar redes com agentes públicos e privados para propiciar o melhor acolhimento aos imigrantes e refugiados, inserindo-os na sociedade. “O acesso à universidade é uma maneira de as pessoas se fortalecerem, aprenderem e construírem sua autonomia”, observou em relação às cotas que a Ufba reservou ao público-alvo da agência da ONU.  



Já existia reserva de vagas para pessoas trans nos 123 cursos de pós-graduação ofertados pela Ufba, mas este ano as cotas passaram a valer também para graduação.“Eu sou uma pessoa trans, eu acho que as políticas públicas que vem se desenvolvendo em diversas universidades tem começado a pensar nessa população que vive à margem, marginalizada, que sofre criminalizações e preconceitos, e que vive numa sociedade excludente”, falou Pérola Preta Reis. Ela que já é formada em psicologia, agora foi aprovada para o curso de dança, que qualifica como “maravilhoso”.

“Eu acho ótimo que a Ufba tenha tomado essas iniciativas nos últimos tempos, não só em relação às pessoas trans, mas às políticas públicas que envolvem não só o acesso à  universidade, mas também a permanência nela, que é até mais importante que entrar aqui”, refletiu Reis.

De acordo com a resolução do Conselho Acadêmico, em cada curso fica garantida uma vaga para aldeados, uma para quilombolas, uma para pessoas trans e uma para refugiados. Em caso de não preenchimento, a vaga pode ser redirecionada para outro, respeitando a classificação de acordo com a nota do Enem.


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