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A ocupação da periferia de Salvador pela classe emergenteOpinião    Imprimir

18/04/2021 13:47
A ocupação da periferia de Salvador pela classe emergente
Na falta de opções em bairros tradicionais, regiões esquecidas da cidade, mas com localização geográfica privilegiada, despertam interesse da especulação imobiliária para abrigar pessoas de alto poder aquisitivo

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Por Wagner Ferreira
 
Com os metros quadrados mais caros da cidade já ocupados há séculos pela nobreza baiana, os “novos ricos”, ou “emergentes”, buscam áreas antes decadentes ou ignoradas pelo grande capital para ocupar; desfrutar do melhor pôr do Sol e da vista privilegiada ao acordar, sem abrir mão da segurança, claro.
 
Áreas remanescentes de mata atlântica às margens da Avenida Luís Viana Filho (Paralela) e com vista para a Baía de Todos os Santos na Gamboa, 2 de Julho e Subúrbio Ferroviário de Salvador, pouco a pouco, têm recebido obras estruturantes do Governo da Bahia com o intuito de ser mais um espaço preparado para os bem abastados, mas desprovidos de títulos nobres e fidalguia.
 
Acessos alternativos foram abertos pelo poder público - a Ligação Lobato-Pirajá é uma deles - criando, assim, um corredor quase exclusivo, que fuja do itinerário comum dos moradores dessas regiões, ainda que sob o argumento de valorização da periferia e seus moradores: “teremos uma redução significativa no tempo de deslocamento dos moradores de todo Subúrbio, o que significa mais qualidade de vida. Antes, só era possível chegar em uma estação do metrô fazendo o trajeto entre a Suburbana e o bairro do Retiro ou Acesso Norte, que leva mais de uma hora nos horários de maior fluxo de veículos. Agora, será possível chegar à Estação Pirajá em menos de 10 minutos”, justifica o diretor de Infraestrutura e Edificações Públicas da Coordenação de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Conder), Francisco Fonseca.


O projeto em curso é um conceito deturpado do utilizado pela Goldman Properties em várias cidades dos Estados Unidos entre as décadas de 1980 a 2010, que visava a reabilitação urbana americana de áreas antes decadentes, mas com a manutenção dos seus moradores nos locais bem como seu comércio. A região central do Soho (South of Houston), local outrora esquecido, mas que possui centenas de edifícios históricos, é, hoje, um dos metros quadrados mais caros de Nova York. 


Quem vai da periferia ao centro é, na maioria das vezes, para trabalhar ou utilizar de serviços parcos nos bairros distantes, e não o contrário. 
Já a relação de interesse dos moradores de regiões consideradas nobres ou de classe média com a periferia é exótica. Geralmente são pessoas com perfil mais alternativo em busca do novo espaço modinha - a exemplo do restaurante Boca de Galinha, em Plataforma - com programação diferente da encontrada nos espaços badalados de Salvador. 

Intervenções viárias - Ligações como a Lobato-Pirajá, Avenida 29 de Março - que tem em uma das suas margens o condomínio de luxo Alphaville 2 e, mais recentemente, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), serviço que passará de R$ 0,50 centavos para R$ 4,20 (com a integração com o ônibus e metrô) já é o primeiro dispositivo excludente de classes, além da desapropriação de imóveis próximos às obras, que reutilizará parte do trajeto do antigo trem do Subúrbio.
 
Gamboa, 2 de Julho, Subúrbio de Salvador e Itapagipe. Regiões da cidade que dispõem de geografia única, contornada pelo mar calmo da Baía de Todos os Santos. Destes lugares, os dois primeiros, vem sendo ocupado por quem pode pagar de 3 a 6 milhões em média por um imóvel que, ao abrir a janela o proprietário é presenteado, todos os dias, por uma obra de arte. Vantagem que os antigos moradores já tinham, talvez parte deles não desse conta do tesouro que há, ali, de graça, mas que atualmente tem sido disputado palmo a palmo por quem pode pagar pela área vip no show diário que a natureza nos dá. 

Nessa lógica, as "naus transformadoras" não demorarão em atracar nas “Terras Baixas” da Península Itapagipana e Subúrbio Ferroviário. Irão desembarcar os que acham que pobre não tem o direito de ter uma bela vista, tendo como armas a especulação e a desapropriação em nome do “interesse público”. O custo disso? Quase nada. Com apenas uma unidade dos seus suntuosos imóveis compram centenas de casas em Itacaranha, Lobato, Ribeira, Paripe, entre outros bairros similares. Depois, patrocinam uma passagem só de ida aos seus antigos donos para conjuntos habitacionais com o mínimo de infraestrutura às margens da BR 324.




Herança histórica dos anos de ouro da vida social noturna da Bahia, o Clube Fantoches da Euterpe resiste à especulação imobiliária instalada no Centro Antigo de Salvador nos últimos anos. Mas, como um câncer “modernizador”, propostas de compra chegarão até ele em breve. 


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